sábado, 19 de julho de 2008

the shelting sky


Nunca tinha chorado com livro. Até então. Acho um saco me desmanchar no cinema (idem para a vida real). Mas perdi todos os meus pudores na primeira vez que li As cartas, do Caio Fernando Abreu. Lembro exatamente em que circunstância e ambiente eu estava quando não consegui me controlar com algo tão pessoal, com um sentido tão específico, dirigido a uma pessoa em particular. Caio escrevia a Jaqueline e eu entendi todas as entrelinhas, palavra tentando ofuscar dor, fantasiada de carnaval. Passei anos tentando evitar uma segunda leitura do livro, outros tantos tempos fugindo de uma terceira. Porque eu sabia que igualmente ia me ferir e eu não sou de espetar o dedo onde machuca.
Hoje, de bobeira, li uma das outras cartas, aleatoriamente, como quem abre um daqueles capciosos livros de salmos. Outra carta para Jaqueline e uma fisgada no peito reincidente. E no meio de uma descrição de um filme com o John Malkovich, me meti outra vez entre o Caio e a Jaqueline, e chorei tudo o que havia evitado e estava engasgado na segunda e na terceira leitura.

domingo, 6 de julho de 2008

momento Cinira



Patrocinado pelo mel de engenho "mamãe, eu quero".

quinta-feira, 3 de julho de 2008

categoria master

Gosto de velhinhos. Não pelo ar frágil que aparentam, mas pela ideia de bagagem de vida que trazem, de uma sensação que transmitem de saber o mundo no seu pormenor. Lisboa mudou um pouco a minha percepção. Destruiu um bocado da minha visão romantizada quando apresentou idosos ranzinzas, mau-humorados e até agressivos. Não que depois dos 70 eles acordassem convertidos em gente do mal: só não são tão queridos & agradáveis como os velhinhos que conheci até agora (tirando os velhos tarados de ficavam nos bancos da praça, os do filme Cocoon e vovó, que é braba que só a gota).

Já estava desacreditada, desiludida da vida, quando chegam aqui em casa dois idosos para fazer as obras das escadas. O olhar terno, a fala gentil, o passo miúdo. O protótipo dos velhinhos adoráveis em fase de extinção, que nos últimos 3 anos eu só tenho visto na ficção. E dá uma vontade enorme de abraçá-los e agradecê-los por qualquer coisa que seja.
Mas eu me limito a sorrir.

sábado, 28 de junho de 2008

dicas Esquire

Nas minhas tão - frequentes leituras de avião (porque eu tô fudida, mas também tô podendo):

"Sonríe aunque no te haga ni puñetera gracia."



p.s. os homens também acreditam em Pollyanna.

terça-feira, 24 de junho de 2008

melancolia: a fase pré -merda



Gentche, cumassim fizeram um clipe sobre estes meus últimos dias e nem me disseram nada?

these canals, it seems, they all go in circles



melancolia, by Erlend e Eirik.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Límites

Hay una línea de Verlaine que no volveré a recordar.
Hay una calle próxima que está vedada a mis pasos,
hay un espejo que me ha visto por última vez,
hay una puerta que he cerrado hasta el fin del mundo.
Entre los libros de mim biblioteca(estoy viéndolos)
hay alguno que ya nunca abriré.
Este verano compliré cincuenta años;
La muerte me desgasta, incesante.


Borges. O meu querido Borges. El hacedor, 1960.

Me faz pensar em todas as mil coisas que eu não conseguirei / poderei fazer nesta vida, seja por falta de tempo, inércia ou qualquer outra coisa.

domingo, 15 de junho de 2008

Saramago



"Comparo o nosso país com uma pessoa que está na borda do passeio à espera que alguém ajude a atravessar para o outro lado. Estamos sempre à espera de alguém que venha salvar a pátria. O grande problema nacional é a medirocridade e a resignação à mediocridade."


Saramago, no Jornal Público deste domingo.


O interessante destas declarações é que elas, muitas vezes, funcionam na mesma relação de compositor - intérprete. Qualquer pessoa que cante as músicas do Chico Buarque jamais conseguirá incorporar força à mensagem, embora esta continue ali, sendo transmitida em cada palavra. Da mesma forma que eu, como imigrante, embora pense e diga o mesmo que o Saramago (não com a mesma elegância retórica), jamais serei levada a sério.

Ainda bem que consegui um porta-voz.


Fim de semana prolongado em Lisboa. Tempo de aproveitar loucamente cada segundo para pôr em dia o cineminha? Nem. Vou consultar o meu guia de horários com voracidade e me deparo com este aviso. Sou muito suscetível a sinceridades absolutas. Prefiro que me mintam.

Cética, paguei para ver o último do Shyamalan, porque eu acho o bofe bom, em alguns sentidos válidos.
Bem feito: um dos piores filmes que vi nos últimos anos.

Por que as pessoas que tão indo bem, fazem as coisas ali, certinhas, ao seu método, descambam tudo, quando inventam de salvar o mundo? Saco cheio dessas tentativas responsabilidade social. Bem cheio.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

a essência no seu pormenor



The Pearce Sisters é, provavelmente, uma das melhores curtas-metragens já flagradas pelas minhas retinas. Tem um ar propositalmente rústico, uma temática selvagem (mesmo. quase aborígene, como eu gosto), com personagens em versões nuas e cruas. É o quotidiano em trajes civis de ficção, e o mais encantador é a possibilidade de aceitar a natureza de pessoas assim, numa quase inocência, ainda rasgada de humor.

Dica: dá pra ver o filme, na página oficial.

Detalhe: é o mesmo director do bonitinho Wallace & Groomit. Impossível não vingar.